sábado, 20 de junho de 2020

Depressões (Herta Muller)

"Eu não compreendia por que a morte sempre ficava atrás das paredes das casas e a gente nunca podia vê-la, mesmo que tivesse morado a vida toda ao lado dela. E de repente acontecia."

"Na mesa fumega a quente sopa de macarrão. Mamãe diz: nós vamos comer e, quando eu não estou bem perto da mesa, depois da primeira vez que ela chamou, sua mão dura deixa marcas na minha face. É preciso chamar o vovô muitas vezes. As vezes acho que ele faz isto por amor a mim. Eu gosto dele quando ele não obedece à mamãe. Ele lava suas mãos tirando o pó de serra e se senta em seu lugar na ponta da mesa. Ninguém fala mais uma palavra. Minha garganta está seca.
Eu não posso pedir água porque não devo falar durante a refeição.
Quando eu crescer, vou cozinhar flores de gelo, vou falar durante as refeições e beber água após cada bocada."

"A vaca mugia por dias na palha vazia. Ela não tocava na comi da. Durante dias ela só sorvia água, apenas água e ao beber afundava a cabeça até as pontas da orelha no balde.
Toda tarde mamãe trazia leite quente de vaca até a cozinha. Eu Ihe perguntei se ela também ficaria triste se me tirassem dela, se me abatessem. Eu caí contra a porta do armário, fiquei com um galo roxo na testa, o lábio superior inchado e uma mancha roxa no braço. Tudo isso da bofetada."

"Elas embrulham cada trabalho na casa com manejos e movi mentos e suas cabeças estão cheias com a procura pela ausência e fuga de si mesmas. Elas saem por um dia todo de si e entram na lenha e toalhas e latas de seus lares."

"Nos poros de suas peles palpitam piolhos que marcham em filas retas pelos jardins para outros quintais, para carnes vivas e quentes."

"Abri a porta da cozinha, tremia por mais um tempo, e mamãe perguntou se estava frio lá fora, se estava frio de novo lá fora. Ela enfatizou as palavras de novo, e eu pensei que lá fora está frio, mas não frio de novo, pois todos os dias o frio era outro, sempre um frio diferente, a cada dia um novo frio cheio de aspereza. Mas não era frio, era apenas umidade. Você ficou com medo de novo, dizia ela."

"Eu estava ali ao lado do trem ruidoso e olhava para suas engrenagens. Tinha a sensação que o trem passaria pela minha garganta e isto não o incomodaria mesmo que ele rasgasse minhas vísceras e eu morresse. Ele conduz suas lindas mulheres para a cidade e eu vou morrer aqui ao lado de um monte de esterco de cavalo sobre o qual moscas zumbem."

"Olhamos para dentro da névoa quente, que é pesada e pressiona a tampa da nossa cabeça para dentro. Olhamos para longe de nossa solidão, de nós mesmos, e não suportamos os outros e nem a nós mesmos, e os outros do nosso lado também não nos suportam."

"Podemos começar com um exemplo doméstico: a ditadura no Brasil acabou há quase trinta anos. Ainda assim por aqui a tortura é corriqueira, o que logo demonstra que vivemos uma ilusão de Esta do de direito. O domínio global do chamado capitalismo de especulação (ou capitalismo tardio, ou capitalismo financeiro, ou pós-modernismo, ou seja lá qual for o nome.) também não oferece muitas possibilidades de confronto. Ou as pessoas se sujeitam ao controle das megacorporações e aos caprichos das bolsas de valores e moedas voláteis, ou, tal qual uma típica ditadura, não poderão viver...
O chamado mundo corporativo, com suas impagáveis regras e códigos de conduta, também infantiliza as pessoas, obriga-as a exclusivamente cumprir ordens e torna todos os envolvidos acríticos. Poucas coisas são mais grotescas do que a conversa, cheia de "produtividade" e "indices", de dois executivos típicos. Do mesmo jeito que nas ditaduras, nesse ambiente também não há muita possibilidade de reflexão. Um país como a Romênia passou de quintal de uma corja de ditadores psicopatas para a sede de uma camarilha de mafiosos. Sua população mais pobre agora imigra para os países ricos para servir de mão de obra barata. Do mesmo jeito que sob os comunistas, seus direitos não são respeitados."