terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Fique comigo (Ayòbámi Adébáyò)

Eu não me senti melhor. Não me sentiria melhor durante muito tempo. Já estava me desfazendo, como um lenço amarrado às pressas que se afrouxa e cai no chão antes que o dono perceba.

Era a coisa mais linda observar meu marido dizendo à minha filha coisas que ela ainda não era capaz de compreender. Era tão perfeito, tão surreal, que naqueles momentos eu queria pressionar um botão que botasse a vida em pausa.

já estava começando a compreender que toda aquela raiva tinha sido uma simulação. Algo que eu estava usando para me defender da vergonha. A raiva é mais cômoda do que a vergonha.

"Antes de chamar o caracol de fraco, amarre sua casa às costas e carregue-a por uma semana." 

Levaria um tempo para eu me dar conta de que cada um de meus filhos tinha me dado tanto quanto tinha levado. Minhas lembranças deles, agridoces e constantes, eram tão poderosas quanto uma presença física. E, por isso, enquanto o ônibus me levava para o coração de uma cidade que eu não conhecia, enquanto minha última filha estava morrendo em Lagos e o país mergulhava no caos, eu não tive medo porque não estava sozinha.